1.6.11

A PROPÓSITO DE...







Comemorou-se hoje mais um dia da Criança.  E enquanto passeava no parque com a Mariana, e olhava as centenas de crianças espalhadas por ele absorvidas por jogos brincadeiras e espectáculos de marionetas, recuei no tempo mais de 50 anos e vi-me do tamanho delas. Naquele tempo não havia dia da Criança. Melhor, segundo a Wikipédia, o dia um de Junho de 1950 foi comemorado em todo o mundo como o dia da criança. Não sei se Portugal estava ou não no lote de "todo o mundo". Ainda que estivesse,  quem ia saber disso no velho barracão onde não havia sequer um rádio? No barracão à beira rio plantado, digo plantado porque ele estava apoiado em vários pilares de cimento  com cerca de metro e meio de altura. Havia uma escada de madeira que ligava a porta ao chão. Penso que era assim, porque quando havia temporal, ou nas marés vivas de Agosto, a água sempre chegava ao barracão, e nós sentávamos na escada e mergulhávamos os pés na água. Eu era a mais velha e tinha dois irmãos. Quando minha mãe ia para o trabalho, deixava-nos fechados no quarto. O quarto não tinha janela para a rua. Apenas um pequeno postigo na porta que dava para o salão que servia de cozinha e sala de refeições. Não tínhamos bonecos. Eu tive uma boneca de papelão, que era para mim e para a minha irmã. Durou pouco tempo a minha boneca. Era uma preta de cabelos encaracolados e boca vermelha. Eu nunca tinha visto ninguém com aquela cor, daí pensei que a boneca estava suja. A  minha mãe costumava fazer uma barrela para a roupa branca . Ora um dia ela mergulhou a roupa na barrela e foi fazer o almoço. Eu fui à celha da barrela, levantei uma ponta de roupa e escondi  a boneca por baixo para a minha mãe não ver. Pensava que a boneca ia ficar branca e só consegui transformá-la num monte de papelão desfeito que ainda por cima manchou a roupa à minha mãe e me valeu umas valentes palmadas. Mas dizia eu que a mãe ia trabalhar e nos fechava no quarto. A porta do quarto era feita de madeira fina.  Depois que ela saía, eu e a minha irmã puxávamos a porta para dentro, e o meu irmão que era o mais pequenito e magrinho passava pelo buraco, punha um banco junto à porta e corria o fecho abrindo-nos a porta. Claro que brincávamos à vontade por toda a casa. Quando eram horas de meus pais virem almoçar, íamos para dentro do quarto e fazíamos a operação inversa. Durante muito tempo foi um quebra cabeças para os meus pais, que nos encontravam sempre fechados no quarto, mas a casa numa balbúrdia. Um dia  esquecemos da hora e quando eles entraram eu e a minha irmã assustadas largamos a porta e deixámos o mano entalado. Na verdade até irmos para a escola passávamos meses que não víamos outras crianças. Quando a safra acabava e minha mãe deixava de trabalhar, brincávamos na areia, junto à casa, e andávamos no baloiço que meu pai fez entre dois pinheiros junto ao barracão.  E nós éramos tão felizes. A  verdade  é que só sentimos falta daquilo que conhecemos.  E nós não conhecíamos quase nada.

6 comentários:

gaivota disse...

que saudades desses tempos... nós que podíamos brincar na rua todo o dia sem horas... até a voz da nossa mãe chamar para almoço e jantar!
a Mariana está mesmo uma princesinha! linda menina, graças a Deus!
todos os dias são o DIA DA CRIANÇA!
neste mundo cruel onde se cometem os mais hodiondos crimes, só podemos pedir protecção para todas as nossas crianças!
beijinhos
(já está quase... na 4ª feira!)

Isamar disse...

Mais um texto perpassado de vários sentimentos que li com todo o gosto. Tempos de escassez, tempos de sofrimento, tempos de trabalho árduo para que nada vos faltasse para serem felizes. E eram-no como tu contas.
Quanto à Marianita, está cada vez mais crescida. Linda, a nossa/vossa menina.Que Deus lhe dê tanto quanto peço para a minha neta. Não percamos a força nem a vontade de lutar por eles.

Beijinhos, Elvira.

Tudo de bom para vós

isa disse...

Está tudo tão lindo aqui!
O blog ficou mais giro;a Mariana
está cada vez mais linda;a história
mt boa e convidando a mais leituras.
Beijo.
isa.

Mariazita disse...

Tempos difíceis, sem dúvida, mas em que as crianças eram mais felizes, e podiam andar à vontade sem correrem o risco se serem... raptadas, por exemplo.

Diz-se que a mentira tem as pernas curtas... Vocês não mentiram, é certo, mas enganavam os pais:))) e o pobre mano é que ficou entalado:)
Achei graça à história.

A Mariana está um encanto. (Eu adoro crianças). E como cresceu rápido! O tempo passa sem nos apercebermos...

Resto de boa semana. Beijinhos

Pitanga Doce disse...

Olha que eu não te imaginava assim tão arteira! Como a gente se engana! :-))))

Sérgio Luyz Rocha disse...

Que crônica linda! Costumo dizer que a crônica é o mais árduo estilo literário à se construir; peno quando me resolvo escrever uma e o resultado, quase sempre, insatisfatório. É um dom.
E mais linda é, por ser a experiência que lhe originou tão mais bonita.
Não importa mesmo onde ou quando, o fato é que somos tão felizes quando crianças, talvez por não se dar conta dos conceitos das coisas...
Parabéns pela linda crônica.
Abraços...

Ah!
Acho que o Brasil que não fez "parte de todo o mundo", já que por aqui comemoramos o dia da criança em outubro...rsrs...